A forma da Terra

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Dinâmica celeste

ATENÇÃO: Página do Prof: Everton G. de Santana

Nesta página eu apenas traduzi podendo ter introduzido, retirado ou não alguns tópicos, inclusive nas simulações. A página original, que considero muito boa é:

www.sc.ehu.es/sbweb/fisica

Autor: (C) Ángel Franco García

O Sistema Solar
Medida da velocidade 
da luz.
A lua
Máquina de Atwood
Período de um pêndulo
Pêndulo acionado por
forças de marés
O fenômeno das
marés
Aceleração da 
gravidade
Viagem pelo interior da
Terra
Modelo do interior da
Terra
Desvio para o leste
de um corpo que cai (I)
Desvio para o leste 
de um corpo que cai (II)
Choque de um meteorito
com a Terra
Medida de G
marca.gif (847 bytes)A forma da Terra
A direção do prumo

Cálculo da aceleração da gravidade no pólo

Uma superfície equipotencial

Fórmula internacional da aceleração da gravidade (1967)

Referências

 

A forma da Terra e dos outros planetas não é a de uma esfera e sim a de esferóide achatado nos pólos devido ao movimento de rotação ao redor de seus eixos. Nesta página, é estabelecido a relação entre os raios equatoriais e polar por dois procedimentos distintos.

 

A direção do prumo

Devido a rotação da Terra, a direção radial não coincide com a direção vertical, ou com a direção do prumo, que é uma corda da qual pende um pedaço de chumbo que é utilizado pelos albaniles para comprovar a verticalidade das paredes que constroem.

 

A Terra considerada como uma esfera de raio R.

Suponhamos uma massa pontual m que pende de uma corda, situada em um lugar do hemisfério norte cuja latitude é λ. A Terra gira sobre seu eixo com velocidade angular constante ω. A partícula descreve uma circunferência de raio R·cos λ,  sendo R o raio da Terra para um observador inercial

A resultante das forças que atuam sobre a partícula deverá ser igual ao produto da massa pela aceleração normal an=ω2R·cos λ, e estará dirigida para o centro da circunferência que descreve a partícula.

As forças  que atuam sobre a partícula são:

  • A força de atração da Terra, que tem direção radial e está dirigida para seu centro, e cujo módulo é

  • A tensão T da corda que é presa a partícula, e que forma um ângulo φ com a direção radial, tal como é apreciada na figura.

A partícula está em equilíbrio ao longo do eixo Y.

T·sen(λ+φ)-mg0·senλ=0

A partícula tem uma aceleração an ao longo do eixo X.

Tcos(λ+φ)- mg0·cosλ=-mω2R·cos λ

Eliminando T no sistema de duas equações, obtemos

       (1)

onde foi tomado R=6.37·106 m, ω=2π/(23.93·60·60) rad/s, y g0=9.81 m/s2

Depois de algumas operações trigonométricas, explicitamos o ângulo φ que forma o prumo com a direção radial

Como α é pequeno frente a unidade, e o ângulo φ é pequeno podemos escrever

Na latitude correspondente ao norte da Espanha, algo mais de λ=43º, temos que φ=0.099º.

A forma da Terra

A direção do prumo é a mesma que a da aceleração da gravidade efetiva g. A forma da superfície da Terra será tal que seja perpendicular a g em cada um de seus pontos.

A tangente a superfície da Terra em um ponto de latitude λ é perpendicular a direção do prumo ou direção vertical neste ponto. Recordando que a inclinação da tangente a uma curva y=f(x) em x0 é o valor da derivada dy/dx da função neste ponto. Como vemos na parte esquerda da figura

Na parte direita da figura, temos que tanλ=y/x

A partir da expressão (1), obtemos a equação diferencial que descreve a forma da superfície da Terra

Integramos esta equação

(1-α)x2+y2=c

onde c é uma constante de integração. Determinamos os raios equatorial a, e polar b tendo em conta que para y=0, x=a, e para x=0, y=b.

A equação da superfície da Terra é a de uma elipse

O achatamento da Terra é o quociente

Os valores medidos dos dois raios equatorial e polar da Terra são respectivamente.

a=6 378 137 m, b=6 356 752 m 

o que da um achatamento de f=3.35·10-3 que é aproximadamente o dobro que o obtido anteriormente.

Para explicar a discrepância devemos ter em conta que a lei da Gravitação Universal

se aplica a duas massas pontuais M e m separadas de uma distância r, ou a uma distribuição esférica de massa M e uma partícula de massa m situada a uma distância r maior que o raio da esfera. No caso de que o corpo seja de uma forma distinta de uma esfera, temos que calcular a força que produz cada um dos elementos de volume do corpo extenso sobre a partícula considerada, as componentes destas forças e a resultante, como veremos no tópico seguinte.

Para uma Terra com a forma de esferóide, a energia potencial gravitacional é desenvolvida em harmônicos esféricos (veja referência 1), para calcular g0 em função da latitude λ e o ângulo que forma com a direção radial.

 

Cálculo da aceleração da gravidade no pólo

A aceleração da gravidade em um ponto P situado a uma distância r da massa pontual M é definida como a força sobre a unidade de massa.

g=Fg/m

Neste tópico, mostraremos a dificuldade que apresenta o cálculo da aceleração da gravidade g no pólo produzida por uma distribuição uniforme de massa em forma de elipsóide de revolução de semi-eixos horizontal a, e vertical b, sendo a>b.

Se Z é o eixo que passa pelos pólos, por simetria a aceleração da gravidade no pólo terá a direção do eixo Z e sentido para o centro do elipsóide.

Para calcular seu módulo g, dividamos o elipsóide em discos de raio y e de espessura dz. Calculemos a intensidade do campo gravitacional no ponto de coordenadas (0, 0, b) produzido por cada um dos discos

O primeiro passo, consiste em calcular o campo produzido pelo anel de raio x de largura dx e de espessura dz no pólo, situado a uma distância b-z deste anel.

Seja ρ é a densidade constante da distribuição uniforme de massa. A massa contida no anel é ρ·x·dx·dz. O campo produzido por esta massa é

Por simetria, as componentes horizontais (ao longo do eixo X e Y) deste campo se anulam de duas em duas, (flechas de cor vermelha na figura do centro) ficando somente a componente Z

Integramos relativo a variável x, entre os limites 0 e y para calcular o campo total produzido pelo disco de raio y e de espessura dz.

Relacionamos a variável y e z para integrar relativo a variável z entre os limites –b e b A equação da elipse de semi-eixos a e b é

A aceleração da gravidade no pólo é obtida integrando

Deixamos para o leitor a resolução desta integral.

 

Uma superfície equipotencial

Um objeto situado sobre a superfície da Terra a uma latitude λ, descreve um movimento circular de raio x=r·cosλ tal como é mostrado na figura.

As forças que atuam sobre este objeto desde o ponto de vista de um observador não inercial que se move com a Terra são:

  • A força de atração gravitacional, Fg que tem direção radial, e sentido para o centro da Terra e vale

sendo r a distância entre o objeto e o centro da Terra, M a massa da Terra e G a constante da gravitação..

Fc=mω2x

sendo ω a velocidade angular constante de rotação da Terra.

A resultante de ambas forças é a tensão T da corda que prende a partícula de massa m.

Forças conservativas. Energias potenciais

A força de atração Fg é conservativa e sua energia potencial é

De novo, supomos que a Terra é aproximadamente esférica, e não levamos em conta o alongamento produzido no equador como conseqüência do movimento de rotação da Terra.

A força centrífuga depende unicamente da distância x ao eixo de rotação é por tanto, uma força conservativa, cuja energia potencial é

Tomando o nível zero da energia potencial no eixo de rotação x=0.

A energia potencial total é a soma de ambas contribuições

A forma da Terra é a de uma superfície equipotencial, já que a direção vertical ou a direção da intensidade da gravidade efetiva g é perpendicular a superfície equipotencial em cada ponto desta superfície.

Seja r=b, quando λ=π/2, a energia potencial vale Ep=-GMm/b. Assim que o valor de b determina a superfície equipotencial que descreve a forma da superfície da Terra.

Esta não é a equação de uma elipse, porém pode aproximar-se desta supondo que a é um pouco maior que b.

Seja r=a, quando λ=0. A raiz da equação cúbica determina a em função de b, G, M e ω.

Conhecido b podemos encontrar a empregando um procedimento de cálculo numérico.

Na tabela seguinte, são proporcionados os dados relativos a massa em kg, período de rotação em horas, e os valores dos raios a (equatorial) e b (polar) de alguns planetas do Sistema Solar.

Planeta

Massa (kg)

Período (h)

b observado (m)

a observado (m)

Terra

0.598·1025

23.93

6.356·106

6.378·106

Marte

0.0658·1025

24.62

3.40·106

3.417·106

Júpiter

190·1025

9.9

66.93·106

71.35·106

Saturno

57·1025

10.2

54.60·106

60.40·106

Urano

9·1025

10.8

22.37·106

23.80·106

Netuno

10·1025

15.8

21.76·106

22.20·106

Fonte: segundo artigo citado na referência 2

Com o dado de G=6.67·10-11 Nm2/kg2. Para a Terra, a velocidade angular de rotação é

Para facilitar o cálculo no computador, expressamos a distância em unidades de 106 m. A equação que nos permite calcular a a partir do valor observado de b=6.356 é

a3-23594.12a+149964.23=0

Para calcular as raízes desta equação cúbica sugerimos dois procedimentos:

Raízes de uma equação cúbica

x3+ax2+bx+c=0

a=0, b=-23594.12, c=149964.23

Calculamos

Se R2<Q3 como este é o caso, calculamos

 

As raízes da equação cúbica são:

Veja Numerical Recipes in C: The art of scientific computing. Cambridge University Press (1988-1992), pp. 183-185.

Procedimento iterativo 

Esta equação pode ser transformada nesta outra equivalente

para encontrar a raiz pelo método de iteração partindo de um valor inicial próximo a b, obtendo o valor a=6.367.

Este pequeno programa feito em Java calcula o raio equatorial a da Terra pelo método de iteração. Veja Curso de Procedimentos Numéricos em Linguagem Java

public class Planeta{
  public static void main(String[] args) {
        System.out.println(raiz(6.0));
    }
   static double raiz(double x0){
        double x1;
        while(true){
            x1=(x0*x0*x0+149964.23)/23594.12;
            if(Math.abs(x1-x0)<0.001)   break;
            x0=x1;
        }
        return x0;
   }
}

 

Fórmula internacional da aceleração da gravidade (1967)

A aceleração da gravidade a nível do mar para uma latitude λ é dada pela fórmula

g=9.780 318·(1+0.005 302 4·sen2λ-0.000 005 9· sen22λ) m/s2

Esta fórmula leva em conta a rotação da Terra e que a Terra não é uma esfera perfeita, e sim que é achatada nos pólos.

Quando nos elevamos de uma altura h sobre o nível do mar temos que introduzir uma correção, que diminui o valor de g relativo ao valor no nível do mar.

onde g0=9.832 m/s2 é a aceleração da gravidade ao nível do mar nos pólos, R=6371 km é o raio médio da Terra.

Δg= 3.086·10-6 ·h m/s2

Tem outros fatores corretores que temos que levar em conta, como se o terreno que rodeia a localidade de observação é montanhosa ou plano. Veja a página 831 do artigo (Nelson, 1981)

 

Referências

Mohazzabi P, James M. Plumb line and the shape of the earth. Am. J. Phys. 68 (11) November 2000, pp. 1038-1041

Bolemon. Shape of the rotating planets and the Sun: A calculation for elementary mechanics. Am. J. Phys. 44 (11) November 1976, pp. 1125-1128.

Iona M. Why is g larger at the poles?. Am. J. Phys. 46 (8) August 1978, pp. 790-791.

Nelson R. A. Determination of the acceleration due to gravity with the Cenco-Behr free-fall apparatus. Am. J. Phys. 49 (9) September 1981, pp. 829-833